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Tubarões: devemos temê-los ou protegê-los?

No imaginário coletivo, quando o tema é o poder de causar pânico e fobia, nada se compara ao ataque de tubarão. Mesmo quando contraposto a outros animais que atacam seres humanos infinitamente mais.

Todos os anos, na África, dezenas de pessoas são atacadas e devoradas por leões e algumas centenas são atacadas e mortas por elefantes e hipopótamos. E ninguém tem fobia de leão, de elefante ou de hipopótamo. Incrível, não?

O melhor amigo do homem é responsável, a cada ano, por milhões de ataques e milhares de mortes ao redor do mundo e, com exceção dos que já foram atacados, poucos têm fobia de cachorro. No entanto, mesmo aquelas pessoas que nunca viram o mar dizem ter medo de tubarão (elas têm fobia, na verdade). Não é um contrassenso?

E se eu disser que, na Austrália, as árvores de Natal matam muito mais gente do que os tubarões-brancos, você vai passar a ter fobia de árvore de Natal? Imagino que não, claro, mas já está na hora de desmitificar a imagem sensacionalista e irreal do tubarão como o “terror dos mares”.

Ao entrar no mar, é bem verdade, passamos a compartilhar o ambiente natural desses extraordinários predadores, mas, ainda assim, somente circunstâncias muito especiais costumam ocasionar um ataque de tubarão. Na realidade, ataques de tubarão ao homem são eventos absolutamente raros em quase todos os mares __ não costumam passar de 100 ataques por ano no mundo. São tão improváveis e inusitados que podemos chamá-los de incidentes.

Das 400 espécies que habitam os oceanos do Planeta, os registros demonstram que somente três são “mais perigosas” e realmente podem atacar de forma não-provocada. São elas: o tubarão-branco, o tubarão-tigre e o tubarão cabeça-chata (espécie mais implicada nos ataques em Pernambuco).

Ainda assim, deve-se esclarecer que, fora os ataques motivados por circunstâncias especiais, como erro de identificação visual ou defesa de território, não se sabe exatamente por que essas espécies podem agir desta forma, pois se nós seres humanos realmente representássemos uma presa apetitosa para os tubarões haveria muito poucas praias seguras ao redor do mundo e os ataques seriam diários e contados aos milhares.

O vasto e misterioso oceano sempre foi um elemento provocador de um medo mítico. Se nos tempos das grandes navegações temia-se dragões e polvos gigantes, os tubarões são, seguramente, os seres marinhos mais temidos e respeitados no mundo contemporâneo. Dentre os grandes predadores em todo o planeta implicados em ataques aos seres humanos, como tigres, ursos e leões, apenas os tubarões não permitem um “controle” pontual por parte do homem. Tudo isso, com certeza, potencializa nossa insegurança. Porém, não podemos desconsiderar o lado racional dessa questão.

É fato constatar que a visão da nadadeira dorsal de um tubarão na superfície da água ou a simples menção de seu nome costumam causar medo, e até mesmo pânico, provocado simplesmente por sua fama e má reputação. Mas que razões emocionais levam pessoas que nunca pisaram em uma praia a temer os tubarões?

Mesmo os frequentadores assíduos das praias, que já deveriam saber que, estatisticamente falando, têm 130 vezes mais chances de morrer dirigindo seu carro até a praia do que ao se aventurar na água após chegar lá, 75 vezes mais chances de morrer afogado nas águas litorâneas do que vitimado por um tubarão ou mesmo 15 vezes mais chances de morrer passando embaixo de um coqueiro do que por um ataque de tubarão, apresentam comportamento semelhante. E por que isso acontece?

Ter medo de um animal com boca e dentes, portanto capaz de morder, é normal. O medo é um componente evolutivo importante para a nossa sobrevivência. No entanto, quando o medo foge ao controle, e se torna desproporcional à ameaça, tem-se a fobia. E somente a fobia pode explicar tal comportamento irracional __ semelhante ao sentimento que muitos têm com relação à barata, que não representa qualquer ameaça.

Ainda que o ataque de tubarão seja a segunda ameaça natural mais temida na mente humana __ só perde para a morte __, o real perigo que os tubarões representam, em especial no litoral brasileiro, não é tão grande e certo como muitos acreditam. Apesar dos ataques de tubarão ocorridos na Grande Recife, área única no mundo onde as interferências humanas locais aumentaram os riscos, os tubarões não são “feras assassinas” como é comum imaginar. Longe disso. É perfeitamente possível interagir de forma amistosa com esses seres fantásticos.

Em minhas palestras pelo Brasil, gosto de expor uma comparação que exemplifica a diferença de interação e potencial de risco. Se você passar ao lado de um grande predador, como o crocodilo, o leão ou o tigre, e ele estiver com fome, há 100% de veracidade de que ele o verá como uma presa e irá te atacar e te devorar. No entanto, você pode mergulhar em águas claras com um tubarão, sem saber se ele se alimentou nos últimos dias, e, com certeza, ele irá te respeitar e não atacará.

Assim como eu já fiz, ao mergulhar com várias espécies, incluindo as três “mais perigosas”, biólogos marinhos e outros profissionais vêm estudando os tubarões nos últimos anos para tentar entender melhor seu comportamento e o porquê dos ocasionais ataques ao homem. Um dos objetivos principais é desmitificar e apagar a errônea imagem de “comedor de homens, como a que foi imputada na década de 1970 ao tubarão-branco com o lançamento do famoso filme Tubarão, de Steven Spielberg. A partir daí a fobia espalhou-se pelo mundo.

O filme conseguiu, com grande êxito, passar a distorcida ideia de que o tubarão-branco era um animal perverso e sanguinário, que tinha o homem como alvo principal. A (deturpada) imagem da barbatana dorsal do tubarão-branco, como uma foice singrando as águas atrás da próxima e indefesa vítima humana, que inevitavelmente era abocanhada e mastigada pelas imensas mandíbulas abertas com enormes dentes triangulares aparentes, foi tão forte e negativa que os tubarões-brancos passaram a ser considerados inimigos públicos número 1 da sociedade e foram perseguidos e caçados de forma impiedosa.

Infelizmente, toda essa fobia continua contribuindo para que a sociedade não se preocupe com a matança insustentável dos tubarões que vem ocorrendo nos últimos 30 anos. Ou pior, forma uma torcida coletiva de fóbicos que acreditam que a solução para evitar ataques passa por “limpar as águas infestadas por essas feras”.

Atualmente, cerca de 100 milhões de tubarões são capturados e mortos a cada ano em todos os mares por barcos pesqueiros de 120 países, incluindo o Brasil. Grande parte para obtenção exclusiva de suas nadadeiras para atender ao mercado asiático de sopa de barbatana de tubarão __ servir essa iguaria insossa aos convidados de um jantar ou casamento denota status na cultura chinesa e hoje há trezentos milhões de comensais chineses ávidos por nadadeiras de tubarão.

Essa pesca cruel e predatória, chamada finning, onde os animais capturados são devolvidos ao mar ainda vivos após a extirpação de suas nadadeiras, representa uma monumental ameaça à sobrevivência dos tubarões e está levando muitas populações ao declínio vertiginoso. Nesse ritmo de consumo não sustentável, algumas espécies serão extintas nos próximos anos. E sem esses guardiões dos mares, teremos um ambiente marinho doente, frágil e com desequilíbrios ambientais imprevisíveis.

Somente desmitificando a imagem sensacionalista e irreal dos tubarões e mostrando que eles exercem um papel crucial na manutenção da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas marinhos conseguiremos convencer as pessoas a aceitar que os tubarões são seres marinhos que também merecem e precisam ser preservados, como os golfinhos, baleias e tartarugas. Mas, diferentemente dos golfinhos, baleias e tartarugas, para convencer as pessoas a preservar os tubarões é preciso explicar qual é o seu papel no ecossistema marinho. Vamos lá então.

Os tubarões exercem duas funções primordiais no ambiente marinho. Primeiro, como predadores situados no topo da cadeia alimentar, o equivalente oceânico aos leões africanos e tigres asiáticos, os tubarões asseguram um tipo de ordem nos mares. Mantêm o controle populacional de suas presas habituais e exercem importante papel na seleção natural ao predar os mais lentos e os mais fracos. Em segundo, ao comerem os animais e peixes doentes, feridos ou mortos desempenham também uma função importante na manutenção da saúde dos oceanos.

Para entender melhor o que significa manter a saúde do ecossistema marinho basta ver a semelhante função do abutre no ambiente terrestre. Abutres e urubus, assim como outros grandes necrófagos ou carniceiros, consomem os animais mortos em questão de minutos e não permitem que se decomponham. Se acabássemos com esses animais, os milhares de cadáveres diários passariam a ser consumidos e decompostos por insetos, bactérias e micróbios. Isso levaria dias ou semanas e o nível de microrganismos no ar que respiramos seria insuportável. No mar acontece o mesmo, com os tubarões exercendo função análoga.

Dito isso, é imprescindível a conscientização de que proteger os tubarões é proteger a vida e a natureza, é proteger a nós mesmos.

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman, biólogo marinho, é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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