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Pesca industrial: a maior ameaça à vida marinha e humana

Nesta semana, por indicação de uma amiga querida, assisti a um novo documentário produzido pela Netflix, chamado Seaspiracy, dirigido por um cineasta apaixonado pela vida nos oceanos que, ao decidir mostrar os já conhecidos danos causados pelo ser humano nos ecossistemas marinhos, descobriu e documentou uma rede de conexões globais impactantes pouco conhecidas e seus encadeamentos surpreendentes.

Fiquei verdadeiramente impressionado com as acusações perturbadoras que o filme faz sobre algumas conexões e seus desconhecidos danos à vida marinha. Quando a gente acha que já sabe tudo, ainda mais eu que atuo na área, vem um rapaz brilhante, chamado Ali Tabrizi, e nos descortina uma realidade desconcertante.

 

 

Ele começa o documentário falando de temas já bem conhecidos, como a grande poluição dos oceanos por plásticos, a sobrepesca que vem extinguindo populações de diversas espécies de peixes, como o atum verdadeiro, a caça às baleias, a captura de golfinhos na Baía de Taiji, no sul do Japão, o mercado milionário de barbatanas de tubarão exportadas para a China e o enorme percentual de peixes selvagens capturados acidentalmente pela pesca industrial que são descartados de volta ao mar como lixo.

Até aí parece que será mais um documentário reforçando o alerta para os problemas citados. Ainda mais quando aborda a queda acentuada de diversas espécies de tubarão provocada pela pesca industrial e a importância desses predadores topo de cadeia para manter os oceanos saudáveis, argumento que eu venho usando há mais de vinte anos para a desmitificação dos tubarões.

No entanto, de forma inesperada, o documentário dá uma guinada e começa a revelar as conexões e os encadeamentos da pesca não sustentável que conduzem aos (pouco) conhecidos danos causados à vida marinha e à vida humana. Mostra e propõe que a pesca industrial dos peixes selvagens é, de longe, o maior problema para a vida marinha.

Sobre a poluição dos oceanos por plásticos, o documentário chama a atenção para um a realidade totalmente diferente do que hoje é apregoada. Os canudos plásticos são responsáveis por somente 0,03% do plástico jogado nos oceanos, enquanto 46% de todo lixo plástico boiando nos oceanos são redes de pesca (muito mais perigosas) e outra boa parte desse lixo é composto por outros tipos de equipamento de pesca. Todos os dias, a pesca de espinhel coloca no mar linhas de pesca suficientes para dar a volta no planeta quinhentas vezes e muitas são perdidas. Centenas de baleias encontradas mortas nas costas dos continentes estão com seus estômagos cheios de equipamentos de pesca. Mas porque as campanhas contra o plástico nos oceanos não falam da pesca industrial?

Um estudo global estimou que cerca de mil tartarugas marinhas morrem por causa do plástico nos oceanos do mundo. No entanto, só nos Estados Unidos, 250 mil tartarugas marinhas são capturadas, feridas ou mortas todos os anos por barcos de pesca industrial. E isso não é publicado e não gera enternecimento na sociedade. Porém, quando a foto de uma única tartaruga marinha com um canudo plástico enfiado na narina foi publicada nas redes sociais, viralizou e fez surgir forte comoção e uma campanha internacional contra o uso dos canudos __ o documentário faz uma analogia interessante: seria como tentar salvar a Floresta Amazônica boicotando os palitos de dente. A realidade, deve-se perceber, é outra. Cinco em cada sete espécies de tartaruga marinha estão ameaçadas de extinção não por causa das mudanças climáticas, poluição dos oceanos ou por plástico boiando, mas sim por causa da pesca industrial.

Sobre a caça às baleias e aos golfinhos, que causam grande impacto nas pessoas, o documentário contrapõe que, na verdade, a maior ameaça às baleias e golfinhos é a pesca industrial. Mais de 300 mil baleias e golfinhos são mortos por ano pela captura acidental da pesca industrial. Um só barco de pesca de atum mata cerca de 45 golfinhos para pegar oito atuns. Nos últimos trinta anos, somente na costa francesa do Atlântico, a captura acidental pelos navios de pesca industrial acontece de modo silencioso e mata dez vezes mais golfinhos do que na Baía de Taiji, onde cerca de mil golfinhos são capturados e mortos a cada ano. Na Islândia, em apenas um mês de pesca, somente um barco pesqueiro captura e mata acidentalmente 270 toninhas-comuns e 900 focas de quatro espécies.

Ao longo do documentário somos atingidos por uma chuva de informações novas e relevantes. Nem mesmo eu sabia que o forte declínio populacional de tubarões nos oceanos nas últimas décadas provocou uma queda abrupta na abundância de aves marinhas. E por que isso ocorreu? Nas suas diárias e incessantes movimentações e ataques aos cardumes, para obtenção de comida, os tubarões fazem com que os peixes subam para a superfície e assim proporcionam boas oportunidades de alimentação também para as aves marinhas. Sem os tubarões, as aves passaram a ter dificuldade para achar presas. Sem alimento, não há reprodução.

Um dos encadeamentos mais surpreendentes revelados pelo documentário foi a descoberta de que a privação de pescado para alimentação provocou epidemias nas populações humanas. E como isso aconteceu? Na África Ocidental, a intensa pesca industrial chinesa e europeia que vem sendo empreendida nas ultimas décadas impactou sobremaneira a pesca artesanal milenar da região costeira. Como resultado, houve uma queda acentuada na disponibilidade de peixe como alimento para a população litorânea. A fome, por sua vez, intensificou a caça de animais silvestres nas florestas do interior. E aí o impacto não se limitou somente à vida selvagem. A vida humana também sofreu. O comercio de carne de animais selvagens se tornou responsável por epidemias como o Ebola.

A preconizada piscicultura como opção sustentável para a pesca selvagem é acusada no documentário como uma panaceia para o problema de alimentação mundial. Além do problema da conversão de 1,5 kg de peixe como ração em 1 kg de peixe comercial, do problema de grande parte do peixe para ração vir da pesca industrial, as fazendas marinhas provocam enorme poluição marinha e graves problemas de saúde para os peixes em cativeiro (anemia, infestação de piolho, infecções e outras doenças). Nas fazendas de salmão da Escócia, a mortalidade entre as ovas e o prato é de 50%. Isso vem gerando um lixo poluidor considerável, incluindo os antibióticos e corantes despejados na água. Sem os corantes na ração, a carne do salmão teria coloração cinza. Ou seja, os consumidores comem peixe cinza pintado de rosa a laranja __ o produtor decide a intensidade que deseja ter na carne do seu salmão.

Até mesmo o trabalho forçado ou escravo de pescadores é denunciado no documentário. Uma boa parte da indústria pesqueira não seria viável economicamente sem esse expediente da idade média, especialmente a pesca de camarões na Tailândia.

Permanecendo o nível atual de esforço na captura realizado pela pesca predatória industrial __ cinco milhões de peixes selvagens mortos por minuto __, a estimativa é de que em 2050 não haverá mais peixe suficiente para pescar e não haverá mais pesca comercial. Só para se ter uma ideia, no Mar do Norte, na década de 1830, um barco de pesca podia pescar de uma a duas toneladas de linguado por dia. Hoje, a frota pesqueira inteira só consegue pegar essa mesma quantidade em um ano. Ou seja, hoje o linguado é mil vezes menos abundante do que já foi.

A solução é reduzir e até mesmo cessar o consumo de peixe. Se não pela sustentabilidade dos oceanos, então pelas motivações de saúde humana. A cadeia alimentar nos oceanos é a fonte mais concentrada de poluentes, como metais pesados tóxicos, dioxinas, PCB`s, hexaclorobenzenos, compostos plásticos e até mesmo produtos químicos retardantes de chama. Qualquer poluente industrial é sempre mais concentrado nos peixes, tubarões e raias devido à bioacumulação na cadeia trófica. E no topo dessa cadeia estão os consumidores humanos.

Ainda dá tempo de salvar os oceanos da completa exaustão. A vida marinha se recupera muito rápido se tiver uma chance. E você pode fazer parte desse movimento evitando o consumo de peixes. E assistindo o documentário.

 

 

 

 

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman, biólogo marinho, é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

 

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