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O novo coronavírus está se tornando mais letal?

 

Semana passada, a notícia de uma cepa mutante do coronavírus Sars-Cov-2, originada na Espanha, que estaria ocasionando uma segunda onda na Europa, provocou dúvidas e apreensões no mundo todo. Mas será que o novo coronavírus está se tornando mais letal? Vale buscar respostas com a biologia evolutiva para entender o que pode estar ocorrendo.

A biologia evolutiva é uma ciência que estuda a origem e o processo de evolução e adaptação dos seres vivos aos seus ecossistemas naturais ao longo do tempo.

Baseados nessa ciência, podemos afirmar que o objetivo de todo parasita, bem adaptado, é manter seu hospedeiro vivo, e relativamente saudável e ativo, enquanto se reproduz, se multiplica e se dissemina para outras vítimas. Assim, não é interessante para o parasita que o hospedeiro morra, especialmente de forma rápida, pois ele morrerá junto antes de cumprir seu papel biológico. E isso vale também para parasitas patógenos como os vírus.

Nesse sentido, a virulência – poder que um agente biológico tem de causar doenças graves e fatais – é inversamente proporcional ao potencial de transmissão, ou seja, quanto mais virulento for um vírus, menor será o seu poder de disseminação. Em contrapartida, quanto menos virulento maior será seu poder de se espalhar entre os hospedeiros. E exemplos não faltam.

Os vírus causadores das epidemias de SARS (China, 2002), MERS (Arábia Saudita, 2012) e Ebola (África, 2013) são exemplos de vírus muito virulentos e, por isso, pouco adaptados ao corpo humano. Matam seus hospedeiros de forma rápida, mantendo, assim, sua disseminação temporal em áreas mais restritas. Já uma variante da influenza H1N1 se adaptou tão bem que conseguiu ser persistente em crianças em todo o Brasil. Ele consegue se esconder nas células de defesa do organismo por anos e, assim, continuar existindo e se multiplicando sem causar doença na criança hospedeira, de modo que ela possa transmitir para outras pessoas. Do ponto de vista da biologia evolutiva, essa variante atingiu um alto nível de adaptação.

 

cronicascoronavirus

 

Esse novo coronavírus, chamado Sars-CoV-2, que muito recentemente passou de um animal silvestre para os seres humanos, está exatamente na sua fase de seleção e adaptação a uma nova espécie hospedeira, um novo ecossistema (nosso corpo). Explico melhor.

O Sars-CoV-2, como todo vírus, é um ser muito simples com material genético composto por um único filamento de RNA e grande velocidade de reprodução. O resultado dessa combinação é um enorme potencial de mutações que ocorrem ao acaso e em curto intervalo de tempo. E cada uma dessas mutações é testada pela seleção natural nesse novo ecossistema. Sendo vantajosa para o vírus (menor virulência, por exemplo), a mutação terá enormes chances de ser preservada e passada para as gerações futuras. Caso seja nociva (maior virulência), fará com que o vírus tenha menos condições de multiplicação. As variações sem importância não afetam as adaptações do organismo.

Vale citar um exemplo real para entender como o acaso e a seleção natural coexistem e atuam nas novas variações e adaptações dos seres vivos, direcionando sua evolução.

Em quase todo o planeta, as moscas, assim como a maioria dos insetos, têm nas asas um eficiente meio de sobrevivência. Com elas, podem procurar alimento e fugir dos predadores. Visto desta forma, a asa é extremamente importante, e, sem ela, o indivíduo teria poucas chances de continuar vivo. Entretanto, nas praias de uma pequena ilha no meio do Pacífico, onde sopra um vento forte e constante, vive, protegida do vento entre pedras empilhadas, uma espécie de mosca sem asas. Ocasionalmente, ocorre uma mutação que gera o aparecimento de asas rudimentares. Basta, então, que essas asas, agora ou nas gerações futuras, sejam suficientes para um “voo experimental” e o indivíduo é imediatamente levado para o mar pelo vento. Esse é um exemplo marcante e real de como a seleção natural atua no sentido de “por à prova” qualquer variação estrutural. As asas, que são vantajosas em quase todo o planeta, passam a ser nocivas nesse ambiente. O que normalmente seria um direcionamento evolutivo natural será sempre eliminado pela seleção natural nesse ambiente específico.

O Sars-CoV-2 está, nesse momento, no mundo todo, passando por essa fase evolutiva onde a seleção natural está exercendo sua função e selecionando as “melhores” variações de cepas, ou seja, aquelas que se tornarão mais bem adaptadas ao novo hospedeiro humano. Vale acrescentar que cada grupo populacional ou familiar, ou até mesmo cada pessoa, se constitui num ecossistema distinto e, nesse sentido, a adaptação do vírus poderá trilhar caminhos evolutivos diferentes.

Dessa forma, as cepas mais letais tenderão, por seu menor potencial de dispersão, a perder a corrida evolucionária para as cepas menos letais. As mais letais causarão infecções graves e mortes nos mais vulneráveis, mas tenderão a desaparecer com o tempo. As menos letais propenderão às melhores adaptações, com maior capacidade de disseminação, e terão maiores chances de permanecerem mais persistentes nas populações. Nesse caso, a vacina será nossa melhor e única arma para lidar com essas cepas.

 

 

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman, biólogo marinho, é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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