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Eventual envolvimento de tubarões em acidente de avião

Toda vez que ocorre um acidente de avião no mar, quando se tem o início das buscas por sobreviventes, destroços e corpos, a potencial presença de tubarões na área é sempre aventada como um fator de urgência e ameaça. Logo já se começa a cogitar a participação dos tubarões na alegada incapacidade de achar os corpos das vítimas do acidente aéreo.

Exatamente o que aconteceu no caso do trágico acidente do voo Rio-Paris, da Air France (AF 447), em junho de 2009, quando então Ministro da Defesa, referindo-se à presença de tubarões na área onde foram avistados os destroços, declarou: “devemos lembrar que estamos na costa de Pernambuco e todo mundo sabe o que estou dizendo”.

 

 

Assim, é preciso esclarecer alguns pontos importantes sobre o tema. Mesmo estando próxima ao arquipélago de São Pedro e São Paulo a área onde foram encontrados os destroços situa-se no meio do oceano, região onde há a ocorrência de espécies de tubarão estritamente oceânicos. Significa dizer que nada tem a ver com as espécies costeiras que habitam o litoral de Pernambuco, notadamente o tubarão cabeça-chata, implicado nos raros acidentes que lá ocorrem, uma espécie territorialista de águas litorâneas que raramente se aventura em águas mais afastadas da costa.

A área em questão é rota eventual de duas espécies de tubarões oceânicos, o galha-branca-oceânico e o tubarão-azul, que são e devem ser animais muito oportunistas. E explico o porquê. Todas as espécies oceânicas vivem em uma região que é considerada um “deserto de vida marinha”, ou seja, onde não há alimento fácil e disponível. Para sobreviver nesse ambiente, esses animais precisam ser naturalmente mais agressivos e investigar qualquer sinal de oportunidade de alimentação. Com seus excelentes sentidos de sensibilidade às vibrações e de olfato, percebem as alterações na movimentação e na composição química da água a quilômetros de distância e conseguem chegar à fonte de emissão desses sinais.

Na época da 2ª Guerra Mundial, quando houve centenas de naufrágios de navios torpedeados e quedas de aeronaves abatidas em alto-mar, o galha-branca oceânico e o tubarão-azul eram sempre os primeiros a chegar ao local do evento. Apesar dessas duas espécies não terem o hábito de atacar os seres humanos, nessas ocasiões, quando há grande quantidade de sangue na água, pode estabelecer-se um frenesi alimentar e ocorrer ataques aos feridos.

No caso do acidente do Voo AF 447, o impacto da aeronave e a grande quantidade de material orgânico disperso na água seriam sinais mais do que suficientes para atrair a atenção dos tubarões para a região. No entanto, como indicaram as buscas, não havia qualquer sinal de sobreviventes e os corpos das vítimas devem ter afundado junto com o avião. Nesse caso, como ocorre na natureza com qualquer animal morto, os cadáveres serviram de alimento para diversos seres marinhos, como tubarões, peixes, moluscos e crustáceos.

 

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman, biólogo marinho, é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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