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Cuidado! Essa crise poderá torná-lo um urso-panda!

Você já deve estar-se perguntando o que a crise atual tem a ver com o panda-gigante, mais conhecido como urso-panda. Vou tentar esclarecer essa analogia começando com a história evolutiva da (péssima) adaptação do urso-panda ao seu ecossistema natural.

Bem antes do início da ocupação humana e destruição de florestas na Ásia, o urso-panda já poderia ser considerado uma espécie muito pouco adaptada caminhando para o processo de extinção. E por que isso? A resposta está na sua frágil estratégia reprodutiva agravada sobremaneira por sua especialização em um único tipo de alimento.

Sua estratégia biológica de reprodução tem duas singularidades, começando pela baixa taxa de natalidade. Fora o fato de as fêmeas ficarem no cio apenas alguns poucos dias, uma vez a cada dois anos, e de boa parte dos machos apresentarem baixíssimo desejo sexual, quando a reprodução realmente ocorre, quatro a cinco meses depois, nasce somente um ou dois filhotes. Em seguida vem a alta taxa de mortalidade infantil, devido à natureza bastante frágil e delicada dos recém-nascidos. Acrescente a isso o fato de, quando nascem dois filhotes, a fêmea usualmente optar por criar apenas um deles __ o filhote rejeitado é abandonado e morre.

Com relação à dieta especializada, o urso-panda se alimenta apenas de bambu, principalmente do gênero Sinarundinaria. Ou seja, evoluiu suas necessidades ecológicas colocando-se numa dependência alimentar muito pouco vista entre os mamíferos onívoros. O bambu corresponde a 99% de sua alimentação. Sem ele, o urso-panda morre de forme.

Dessa forma, já fragilizado como espécie muito pouco adaptada, o urso-panda não suportou a ONDA avassaladora de expansão da agricultura sobre as florestas temperadas montanhosas e principais vales da China, no século XIX, e a consequente forte fragmentação de seu habitat e a diminuição drástica das áreas de bambu. Foram, assim, DRAGADOS para um processo ainda mais acelerado de extinção e, já em 1900, a espécie se tornou restrita às Montanhas Quisling e outras áreas montanhosas do platô tibetano. Essa redução paulatina fez com que o número de ursos-panda declinasse para aproximadamente 1200 na década de 1980. A partir daí, graças ao forte apelo carismático, os chineses decidiram salvar o urso-panda da extinção. E fizeram um bom trabalho. Em 2016, já existiam cerca de 2200 indivíduos.

Retomando a nossa analogia, empresas e profissões são muitas vezes atropeladas pelas rápidas transições e substituições por serem e permanecerem mal adaptadas a seu ecossistema comercial ou profissional e, assim, ineptas a superar crises.

Bem antes do surgimento da atual crise financeira provocada pela pandemia do Covid-19, já estávamos presenciando o fenômeno de desintegração de algumas empresas e áreas profissionais abaladas pela acelerada inovação tecnológica. Ainda que bem mais gradativo e lento, esse mesmo processo de desintegração, que ocorre quando a antiga economia encontra a nova, aniquilou empresas como a Olivetti e a Kodak e profissões como a datilografia e a revelação de fotos, e, mais recentemente, com as empresas e profissionais que atuavam no ramo de aluguel de filmes em fitas de vídeo e DVDs.

Empresas e profissionais da área de propaganda e marketing são um bom exemplo contemporâneo, pois já vinham sofrendo com as frenéticas mudanças nos meios de produção e de divulgação. Se antes havia a necessidade de caros e pesados equipamentos de filmagem, caras produções e caros diretores, os filmes publicitários passaram a ser feitos com modernas câmeras fotográficas portáteis e, mais ultimamente, com as eficientes câmeras de vídeo dos celulares, o que facilitou sobremaneira a possibilidade de “qualquer um” produzir vídeos. Se antes uma campanha comercial precisava que suas peças publicitárias fossem veiculadas nos bons e tradicionais canais de mídia, a internet e as redes sociais, com seu enorme poder de propagação e baixo custo, passaram a dominar esse mercado.

Dessa forma, as empresas e profissionais que tomaram o caminho da especialização nesse setor, e em outros igualmente ameaçados pelas vertiginosas inovações tecnológicas, e não se readaptaram continuamente às novas realidades, não se reinventaram ou não investiram em novas alternativas, se colocando assim como “espécies” muito pouco adaptadas, à semelhança com o urso-panda, não suportarão a ONDA avassaladora da crise financeira provocada pela pandemia do Covid-19 e já estão sendo DRAGADOS para um processo de rápida extinção em massa. Infelizmente, não haverá chinês que os salve.

Parafraseando meu amigo Maurício Werner, dependendo do setor de sua atividade empresarial ou profissional, se você não migrar para “.com” vai virar “.morto”.

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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