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A fonte ameaça secar

A fonte de que trata este artigo não é de água, ainda que esse seja outro grave problema, mas sim a fonte de recursos pesqueiros que vem sendo exaurida e ameaçada há tempos e que está bem próxima de secar.

Todos concordamos que a carne de peixe é uma das melhores, em se tratando da facilidade de digestão e valor nutritivo. Temos também fortes razões gustativas para apreciarmos as lagostas, camarões e mexilhões. Comê-los sempre foi um ato natural e nada antiecológico. No entanto, para que possamos continuar a consumir os recursos pesqueiros devemos pensar de forma responsável sobre este assunto.

Os oceanos e sua biodiversidade devem ser vistos como uma prioridade na questão da preservação ambiental. Não foi por outra razão que a ONU instituiu a Década dos Oceanos no último Dia Mundial do Oceanos (08/06/2020). O objetivo é patente __ aumentar nossos conhecimentos sobre a imensidão de água salgada que cobre 70% do planeta __ e o propósito é um só: conservar sua biodiversidade.

Apesar de a pesca ser uma das mais antigas atividades desenvolvidas pelo homem, parece que todo esse tempo de prática ainda não foi suficiente para evitar que ela seja realizada de forma deletéria. Levantamentos recentes indicam que hoje a captura indiscriminada mata e desperdiça, todos os anos, entre 30 e 40 milhões de toneladas de peixes, tubarões, raias, tartarugas e mamíferos marinhos. Isso representa nada mais nada menos do que um terço de toda a pesca mundial. É um crime contra a natureza. Um desperdício inaceitável que ameaça secar a fonte.

A destrutiva combinação de sobrepesca __ pesca feita de forma correta e legal, porém acima do limite que uma espécie tem de se auto repor na natureza __ e pesca predatória (aquela feita de forma incorreta e ilegal, como a pesca com malha fina, arrastão de fundo ou com uso de bomba) empreendida nas últimas décadas cobrará um alto preço e muito em breve teremos um cenário insustentável.

Recente relatório da FAO/ONU indica que 93% do pescado selvagem comercial estão classificados como capturado em sua capacidade máxima de exploração ou como sobrepescado. Minuciando, significa que 33% dos estoques pesqueiros do mundo estão sendo esgotados mais rápido do que podem ser repostos e outros 60% estão sendo capturados no nível máximo de reposição. Ou seja, restam somente 7% dos estoques pesqueiros no nível sustentável.

E pasmem! Cerca de 80% de toda biomassa dos oceanos já foi reduzida pela pesca industrial e pela pesca artesanal. Esse resultado, junto com os efeitos do aquecimento global nos oceanos, ameaça dizimar os peixes selvagens. Mas a demanda por pescado continua a crescer __ a expectativa é de 30% de crescimento na próxima década, mesmo com o aumento dos preços.

Precisamos, com urgência, nos conscientizar de que o mar, apesar de seu tamanho, não é um provedor com recursos inesgotáveis e que o limite de exploração para algumas espécies já foi ultrapassado. No entanto, felizmente, os recursos pesqueiros, ao contrário de outros recursos naturais, podem ser perfeitamente renováveis. O correto gerenciamento de seus estoques deve ser visto como importante ferramenta para o desenvolvimento sustentável do país.

Nesse sentido, existem alguns instrumentos que já se mostraram eficientes. O defeso, que é a proibição da pesca na época de reprodução (desova) do animal, e a maricultura, que se constitui na produção controlada de espécies marinhas em áreas confinadas, são não só soluções para a queda na captura de espécies comerciais como também formas de preservação dos oceanos. Mas existe uma outra bastante simples que você pode perfeitamente contribuir.

A culinária responsável, que prevê o consumo consciente de apenas aquelas espécies não ameaçadas de extinção, é um claro exemplo de mudança de atitude individual. É um movimento que vem sendo incorporado por vários chefs e restaurantes e do qual você pode também participar.

Devemos entender que muitos dos antigos hábitos de consumo não cabem mais nos tempos atuais. O planeta mudou. O clima mudou. O mundo mudou. Será que você ainda não percebeu? Ou só perceberá quando as sérias consequências advindas dos desequilíbrios nos oceanos baterem à sua porta?

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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