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Origem e Evolução Humana: O Homem ainda está em processo evolutivo?

A afirmação “o homem descende dos macacos”, feita por Charles Darwin ao lançar sua teoria evolucionista em 1859, foi tão forte e marcante que até hoje ainda há pessoas que acreditam ser ela verdadeira. E você, o que acha? O homem é uma evolução do macaco? Como e quando surgiu o homem? Quais foram as pressões seletivas que induziram mudanças físicas no homem? Por que passamos a andar em pé? O que nos levou ao descomunal aumento do cérebro? E ainda, o homem continua em processo evolutivo ou atingiu seu limite?

São perguntas instigantes sobre um tema que sempre desperta grande curiosidade. E a pretensão desse artigo é tentar responder a todas elas. Mas vamos começar entendendo um pouco a respeito do progresso da opinião sobre origem e evolução.

As ideias de Darwin sobre adaptação, sobrevivência dos mais aptos e evolução progressiva não são originais. Elas já haviam sido levantadas por outros pesquisadores e naturalistas que o antecederam, incluindo o grande filósofo grego Aristóteles, que, em 300 A.C., foi o primeiro a delinear os princípios de adaptação e seleção natural, sem, porém, compreendê-los. Goethe, em 1794, destacava que a futura indagação dos naturalistas seria a de como foi que os bovinos teriam adquirido seus chifres e não o porquê de sua utilização. Saint-Hilaire, em 1795, suspeitava que as espécies seriam variações em torno de um mesmo tipo original e que as mesmas formas não se teriam perpetuado desde a origem de todas as coisas. O avô de Darwin, Dr. Erasmus Darwin, também defendia algumas dessas ideias em 1795.

No entanto, a maioria desses antecessores apenas levantavam dúvidas e conceitos sobre os fatos que observavam na natureza sem, contudo, conseguir explicar o porquê de eles existirem. Somente dois naturalistas conseguiram formular teorias para tentar explicá-los amarrando os diversos conceitos isolados já levantados em suas épocas: Lamarck e Darwin. Ainda assim, todos devem ser admirados pela coragem de expressar opiniões totalmente novas e contrárias ao conceito reinante e muito enraizado da Criação Divina (criacionismo) __ tudo e todos os seres foram criados por Deus exatamente como são vistos hoje __, que ainda hoje é acreditada por alguns.

Para se ter uma ideia de como o criacionismo grassava unânime, Georges Cuvier, grande naturalista francês que deu início à paleontologia moderna, ao identificar espécies de dinossauros fósseis, em 1817, atribuiu sua extinção ao fato deles não terem conseguido embarcar na Arca de Noé. Dizer naquela época que os seres vivos existentes eram descendentes de outros que sofreram modificações e que o homem descendia do macaco não podia ser considerado outra coisa senão blasfêmia, heresia.

O naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck, em 1801, defendia a tese de que todas as espécies descendiam de outras e foi o primeiro naturalista cujas conclusões provocaram grande atenção nos meios científicos. Deve-se a ele, o grande serviço de haver despertado a atenção de todos para a possibilidade de que as modificações (evolução) seriam o resultado de leis, e não de intervenções divinas. Entretanto, Lamarck trilhou um caminho errado ao defender a lei do desenvolvimento progressivo, onde as modificações adquiridas pelo fator uso-e-desuso seriam passadas para as gerações seguintes. Explico.

Para Lamarck, o hábito de um determinado procedimento físico ou influência da natureza fazia com que o órgão ou membro envolvido fosse aos poucos, de geração em geração, adaptando-se e melhorando seu desempenho. O pescoço comprido da girafa, por exemplo, seria devido à necessidade de alcançar as folhas altas das árvores. Ou seja, de tanto esticar o pescoço a girafa teria aumentando seu tamanho (veja exemplo teórico mais à frente). Em contrapartida, se um membro não fosse mais usado ele acabaria, também aos poucos, regredindo até desaparecer. A influência de suas ideias foi tão forte, que até hoje ainda existem pessoas que acreditam nessas teorias ultrapassadas.

Charles Darwin foi o primeiro naturalista, em 1859, a apresentar os fatos evolutivos dos seres vivos como devidos a um equilíbrio de forças em conflito. No entanto, devemos admitir que ao tratar da seleção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies, Darwin não tinha total compreensão de como se dava o processo evolutivo e não contava com os conhecimentos que hoje temos para saber como homens e macacos descenderam de ancestrais comuns que se ramificaram em linhagens diferentes.

É importante completar que sua teoria só foi integralmente aceita pela ciência depois da descoberta da estrutura em dupla-hélice do DNA, em 1953. Na introdução de seu livro A Origem das Espécies, Darwin dá um exemplo de humildade: “Ninguém deve se surpreender com o fato de permanecerem obscuros tantos pontos relacionados com a origem das espécies, desde que se dê o devido desconto a nossa profunda ignorância quanto às inter-relações existentes entre todos os seres vivos que nos circundam”.

Pois bem, ainda que os criacionistas não acreditem, o homem, como todos os seres vivos, é um produto da evolução. No entanto, surge daí uma importante questão: as forças que possibilitaram essa evolução continuam atuando? Para ajudar a responder, vale rever alguns conceitos básicos sobre a nova teoria da evolução e os fatores seletivos que canalizaram a evolução humana.

Para quem tem interesse em voltar ao passado, nas próximas semanas publicarei um artigo que descreve, de forma breve e cronológica, como ocorreu essa evolução, quando e onde a linhagem hominídea (homem) se separou da linhagem antropoide (gorilas e chimpanzés) e quais foram os estágios pelos quais a linhagem hominídea passou até atingir o nível humano atual.

1 – A Moderna Teoria da Evolução

Apesar de a teoria evolutiva moderna ter sido pautada em torno de uma nova combinação dos conceitos originais de Darwin, ela é essencialmente uma teoria de dois fatores básicos: a diversidade e a adaptação são encaradas como resultados da produção contínua de variação genética e dos efeitos seletivos do ambiente.

Toda variação genética (mudança de uma característica estrutural) em uma espécie advém das mutações que ocorrem ao acaso e com intervalos de tempo indefinidos nos indivíduos que a compõe. A mutação __ alteração na constituição genética em um dos dois gametas que formarão um novo embrião __ irá gerar uma variação estrutural que poderá ser vantajosa, nociva ou sem importância para a adaptação do indivíduo ao seu ambiente.

A seleção natural, que fixa padrões severos e constitui uma peneira pela qual só passa uma minoria, irá atuar no sentido de “pôr a prova” tal variação estrutural. Sendo vantajosa para o indivíduo, terá enormes chances de ser preservada e passada para as gerações futuras. Caso seja nociva, fará com que o indivíduo tenha poucas chances de sobreviver ou não permitirá que se reproduza. As variações sem importância não são afetadas pela seleção natural e passam para as gerações seguintes de forma oscilante.

Sendo sempre muito oportunista e selecionando qualquer tipo de mecanismo que ajude a preservar a variabilidade genética, a seleção natural está pronta a cada geração para tomar uma direção nova e é um dos fatores mais importantes que induzem mudanças evolutivas. Mas não é o único. Entre os outros fatores está o acaso, muitas vezes responsável pelo desvio na direção da evolução.

Para entender como isso ocorre, voltemos ao tema da mudança evolutiva ser um processo de dois fatores básicos. O primeiro é a produção de variação genética que ocorre na reprodução sexual dos seres vivos, onde o acaso é o regente supremo. Um macho produz bilhões de gametas durante a vida e a fêmea centenas. Apesar disso, um casal só pode produzir, no máximo, dependendo da espécie, uma centena de filhotes. Aí entra o acaso, responsável pela escolha dos gametas que formarão os embriões que terão sucesso. Podemos dizer então que a mutação é governada pelo acaso antes de ser testada pela seleção natural, o segundo fator, que então escolherá os genótipos (constituição genética da prole) que produzirão a geração seguinte.

A seguir, são apresentados dois exemplos que ajudarão você a entender como o acaso e a seleção natural coexistem e atuam nas novas variações e adaptações dos seres vivos, direcionando sua evolução.

Exemplo Teórico: como surgiu o pescoço comprido dos antílopes e girafas? Imaginemos, hipoteticamente, que a há milhões de anos na África, em uma população herbívora ruminante qualquer, com comprimento de pescoço mediano, nascem, ao acaso, dois indivíduos com variação: um com o pescoço menor do que a média e o outro com o pescoço maior do que a média. Como os indivíduos dessa espécie competem entre si e com outras espécies herbívoras pela vegetação disponível na copa das árvores, teremos duas situações. O indivíduo com pescoço menor terá menores chances de sobreviver, já que não poderá alcançar as folhas que a maioria alcança. Já o indivíduo com pescoço maior, passará a ter um nicho diferente dos demais para se alimentar, já que conseguirá alcançar folhas que a maioria não consegue. Terá, assim, maiores chances de sobreviver e passar a nova característica para sua prole, que, melhor adaptada, tenderá a se tornar maioria na população nas gerações futuras. Até que ocorram novas variações nesse sentido, direcionando a evolução para um aumento gradativo do pescoço nesse ambiente específico.

Exemplo Real: as asas da mosca são importantes para a sua sobrevivência? Em quase todo o planeta, as moscas, assim como a maioria dos insetos, têm nas asas um eficiente meio de sobrevivência. Com elas, podem procurar alimento e fugir dos predadores. Visto desta forma, a asa é extremamente importante, e, sem ela, o indivíduo teria poucas chances de competir e sobreviver na maioria dos ambientes naturais. Entretanto, nas praias de uma ilha do Pacífico, onde sopra um vento forte e constante, vive, protegida do vento entre pedras empilhadas, uma espécie de mosca sem asas. Ocasionalmente, ocorre uma mutação que gera o aparecimento de asas rudimentares. Basta, então, que essas asas, agora ou nas gerações futuras, sejam suficientes para um “voo experimental” e o indivíduo é imediatamente levado pelo vento para o mar. Esse é um exemplo marcante e real de como a seleção natural atua. As asas, que são vantajosas em quase todo o planeta, passam a ser nocivas nesse ambiente. O que normalmente seria um direcionamento evolutivo natural, será sempre deletado pela seleção natural nesse ambiente em especial.

Sobre Marcelo Szpilman

Marcelo Szpilman, biólogo marinho, é autor de oito livros publicados, sendo cinco nas áreas de peixes, tubarões e outros seres marinhos. É o idealizador, fundador e presidente de honra do AquaRio e diretor-presidente do Instituto de Conservação Marinha.

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Esse texto é primeira parte da trilogia sobre a Origem e Evolução Humana. 

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Parte 2 com lançamento dia 7 de Outubro.

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