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Origem e Evolução Humana – Uma Volta ao Passado

Há dois aspectos da evolução humana que devem ser claramente distinguidos: um é a ramificação da linhagem original, ou a diversificação do hominídeo da linhagem dos antropoides, e o outro é o desenvolvimento de uma nova linhagem hominídea para atingir o nível humano. Daí emergem duas principais perguntas:

 

1 – Quando e onde a linhagem hominídea se separou da linhagem antropoide e como era o elo perdido?

 

2 – Quais foram os estágios pelos quais passou a linhagem hominídea até atingir o nível humano atual?

 

O elo perdido

 

Por um longo período, o estudo do homem fóssil limitava-se essencialmente à procura de uma forma intermediária, o chamado “elo perdido”. As primeiras reconstruções ilustravam uma criatura intermediária entre o chimpanzé e o homem, algo como o “homem-macaco”, implicando no conceito de que o chimpanzé seria o ancestral direto do homem e que o chimpanzé teria interrompido sua evolução logo após ter dado origem à linhagem humana. Assim como esta, a suposição adicional de que os macacos antropoides atuais seriam formas primitivas e que o homem deveria ter passado por este estágio na evolução também estava errada.

 

As descobertas recentes dos fósseis deixam bastante claro que os macacos antropoides evoluíram tanto quanto os hominídeos desde sua separação do ramo comum. Em muitos aspectos morfológicos, as linhagens antropoides parecem mais distintas do ancestral comum do que o homem moderno.

 

Para encontrar este ancestral comum devemos voltar no tempo e tentar procurar uma criatura na qual faltem as especializações dos antropoides atuais e o completo bipedalismo e desenvolvimento cerebral dos hominídeos recentes, mas que possua algumas das características que diferem os macacos hominoides dos macacos cercopitecoides.

 

Apresentação simplificada da ordem dos Primatas

 

1- Subordem dos Prosímios (lêmures, indris, gálagos e társios).

2- Subordem dos Símios ou Antropoides

2.1- Grupo dos Platirrinos (macacos com cauda do novo mundo, como os macacos-aranha, macacos-prego, bugios, sagüis e micos).

2.2- Grupo dos Catarrinos

2.2.1- Superfamília dos Cercopitecoides (macacos com cauda do velho mundo, como os babuínos, mandris e macacos colobos, langures e cercopitecos).

2.2.2- Superfamília dos Hominoides (macacos sem cauda – Antropoides)

2.2.2.1- Família dos Hilobatídeos (gibões).

2.2.2.2- Família dos Pongídeos (orangotangos).

2.2.2.3- Família dos Panídeos (gorilas e chimpanzés).

2.2.2.4- Família dos Hominídeos (homens).

 

Cabe acrescentar que a vulgar denominação de macaco ou símio é utilizada para os macacos com cauda. Para os macacos sem cauda, como os orangotangos, chimpanzés e gorilas, utiliza-se a denominação antropoide.

 

A seguir, será descrito, de forma breve e cronológica, como ocorreu essa evolução através dos períodos de nossas Eras. Os comentários tentarão responder às duas perguntas formuladas anteriormente.

 

Fim do Período Cretáceo (70 a 65 Milhões) – Fim da Era Secundária

 

A África está separada da Ásia, a América do Norte próxima da Europa e a América do Sul está se afastando da África. O Clima é quente em todo o planeta. Os dinossauros (do período Jurássico) ainda dominam a Terra.

 

70 milhões – Aparece na América do Norte o mais antigo ancestral direto da ordem dos primatas, um pequeno mamífero noturno, insetívoro e parcialmente frutívoro, do gênero Purgatorius. O desenvolvimento das plantas superiores floríferas possibilitou aos primatas, essencialmente frutívoros e folífagos, conquistarem este novo nicho ecológico.

 

65 milhões – Por uma combinação de restrição na variabilidade genética e a explosão catastrófica de um enorme meteorito na Terra, os dinossauros desaparecem em torno dos 65 milhões de anos. Esse evento possibilitou aos mamíferos (e primatas) ocupar os diversos nichos sem concorrências e expandir-se com grande variedade.

 

Período Paleoceno (65 a 53 Milhões) – Início da Era Terciária

 

Começa o aquecimento gradual de todo o planeta.

 

60 Milhões – Aparece a primeira subordem (Plesiadapiformes) de primatas conhecidos (primatas arcaicos), do gênero Plesiadapis. Semi-arborícolas, frutívoros e insetívoros, com 0,5 a 3 kg, viveram nas florestas da Europa e da América do Norte e extinguiram-se sem deixar descendência.

 

Período Eoceno (53 a 34 Milhões) – Expansão dos Primatas modernos

 

Foi o período mais quente da Era Terciária, onde as florestas tropicais ocupavam até o círculo Ártico.

 

50 Milhões – Surgem, nas florestas de palmeiras e sequóias da Europa, os primeiros verdadeiros primatas, da subordem dos Prosímios, o gênero Adapis. Arborícolas, pesando cerca de 1,5 kg, se alimentavam de folhas e frutos. São os ancestrais da infraordem dos Lemuriformes, do gênero Lemur dos dias atuais (os lóris, indris e gálagos da África e sul da Ásia e os lêmures de Madagascar, na África).

 

Surgem também, no mesmo habitat, na Europa e América do Norte, os primatas da infraordem dos Omomiíformes, o gênero Necrolemur. Arborícolas noturnos, pesavam cerca de 300 gramas e se alimentavam de folhas, frutos e insetos. São os ancestrais da infraordem dos Tarsiiformes, do gênero Tarsius dos dias atuais (társios ou macacos tarsióides do sul da Ásia).

 

Período Oligoceno (34 a 23 Milhões) – Expansão dos Símios

 

Começa a ocorrer uma queda gradual da temperatura na Terra, formando uma calota polar no Polo Sul. As estações passam a ser mais bem definidas fora das áreas tropicais, provocando o desaparecimento dos primatas na Europa. Os movimentos tectônicos criam uma grande falha no leste da África.

 

30 Milhões – Surgem os primeiros primatas da subordem dos Símios ou Antropoides, da qual pertencem todos os primatas modernos, incluindo o homem. Aparecem no Egito, Marrocos e Argélia macacos quadrúpedes arborícolas da infraordem dos Parapithecóides, o gênero Apidium. Pesavam de 0,25 a 1,5 kg e se alimentavam de folhas e frutos. São os ancestrais dos Platirrinos da América do Sul, porém extinguiram-se sem deixar descendência.

 

Surge o gênero Branisella, da infraordem dos Platirrinos (macacos com cauda ou símios do novo mundo). São os mais antigos primatas da América do Sul, descendentes dos Parapithecóides da África que emigraram acidentalmente no Eoceno para a América do Sul (novo mundo) em jangadas naturais através do oceano Atlântico, que na época tinha apenas mil quilômetros de distância entre a África e a América do Sul. Arborícolas, viviam nas florestas tropicais e já apresentavam as características dos Platirrinos: nariz achatado, rosto mais curto e 36 dentes. Pesavam 1 kg em média e se alimentavam de folhas e frutos. Deles descenderam os pequenos símios arborícolas do gênero Tremacebus, que viveram por volta dos 17 milhões de anos na América do Sul e que são os ancestrais diretos do gênero Ateles dos dias atuais (símios como o macaco-aranha, da América do Sul e Central).

 

28 Milhões – Surgem no norte da África os primeiros macacos “modernos” da infraordem dos Catarrinos (da qual pertencem todos os primatas modernos, incluindo o homem), do gênero Aegyptopithecus. Foram os primeiros a apresentar as características dos Catarrinos: nariz mais estreito e dentição “moderna” de 32 dentes. Não obstante, ainda apresentavam traços antigos, como focinho longo e órbitas afastadas. Esses macacos quadrúpedes arborícolas eram exímios saltadores, pesavam cerca de 7 kg e se alimentavam de frutas e folhas. Extinguiram-se sem deixar descendência.

 

Comentário – O Aegyptopithecus zeuxis, que viveu no Egito há cerca de 28 milhões de anos, é primeiro fóssil que é claramente um macaco antropoide e pode ter sido o ancestral do gênero Dryopithecus.

 

1a Metade do Período Mioceno (23 a 16 Milhões) – Expansão dos macacos Hominoides

 

Com exceção do Saara, toda a África era coberta por florestas. Há cerca de 16 milhões de anos, violentas forças subterrâneas provocaram fortes movimentos tectônicos e o afundamento de enormes blocos que fizeram surgir na grande falha no leste da África o hoje denominado Rift Valley (Vale do Afundamento), com mais de seis mil quilômetros de extensão no sentido norte-sul (do Líbano à Moçambique). Aparecem os primeiros macacos das superfamílias Cercopitecóides (macacos com cauda ou símios do velho mundo __ África, Ásia e Europa) e Hominoides (macacos sem cauda). Os macacos hominoides se expandem por toda a África. A ligação da África com a Ásia, através do surgimento de um istmo, permitiu a migração da fauna e possibilitou a evolução dos macacos hominoides.

 

17 Milhões – Surgem na África os representantes do gênero Victoriapithecus (da superfamília Cercopitecóides). Quadrúpedes com hábitos terrestres, pesavam cerca de 7 kg e se alimentavam de frutas e folhas. Deles descendeu o gênero Theropithecus __ enormes babuínos com 50 a 100 kg  que viveram por volta dos 3 milhões de anos e que se extinguiram provavelmente por serem uma das caças prediletas dos primeiros hominídeos __, que é o ancestral direto do gênero Colobus dos dias atuais (grupo mais numeroso e variado dos símios com cauda do velho mundo, com cerca de 80 espécies, como os babuínos, mandris e macacos colobos, langures e cercopitecos de toda a África e sudoeste da Ásia).

 

Os primeiros representantes da superfamília Hominoides foram os macacos quadrúpedes, do gênero Dendropithecus, que habitavam as florestas da África, nas árvores e no solo, e pesavam cerca de 9 kg. Deles descendeu o gênero Pilopithecus, formado por macacos quadrúpedes, com 5 a 6 kg, que viveram há cerca de 10 milhões de anos na Europa e Ásia. Esta ramificação se extinguiu sem deixar descendentes. Os representantes do gênero Hylobates (da superfamília Hominoides) são os macacos gibões dos dias atuais que vivem nas árvores das florestas tropicais do sudoeste asiático e Índias Orientais.

 

Comentário – Os gibões representam um grupo muito antigo cuja origem é ainda um mistério, mas estima-se que sua ramificação tenha se separado da nossa há cerca de 23 milhões de anos e nada tem a ver com a ancestralidade do homem.

 

Os representantes do gênero Proconsul foram os primeiros macacos hominoides a apresentar a face mais curta e uma caixa craniana mais globulosa. Viveram na África e pesavam de 18 a 50 kg. Deles, descenderam duas ramificações que tiveram evoluções paralelas extintas: o gênero Dryopithecus, com 20 a 35 kg, que viveu na África, Europa e Ásia dos 16 aos 8 milhões de anos atrás, e o gênero Oreopithecus, com cerca de 30 kg, que viveu na Europa por volta dos 5 milhões de anos. Este último já apresentava semelhanças com a bacia e o fêmur dos hominídeos, o que permite supor que, apesar de serem bons arborícolas, já eram dotados de uma rudimentar locomoção bípede.

 

2a Metade do Período Mioceno (16 a 5,5 Milhões) – Macacos Hominoides povoam a Eurásia

 

A África e a Ásia se juntam, ocorrendo o mesmo com as Américas. As florestas tropicais apresentam um forte crescimento na banda meridional da Eurásia. Enquanto alguns macacos hominoides permanecem na África, outros vão povoar a Europa e a Ásia.

 

16 Milhões – Surgem no leste da África, Europa e Ásia os macacos hominoides do gênero Silvapithecus ou Ramapithecus. Pesavam de 40 a 80 kg, apresentavam um focinho menor do que os outros antropoides e talvez uma dieta menos exclusivamente vegetariana.

 

Comentário – O Silvapithecus punjabicus, que viveu dos 14 aos 7 milhões de anos atrás, é o primeiro fóssil que é tipicamente um macaco hominoide. É provável que o gênero Silvapithecus tenha se diferenciado em sua ramificação a partir do gênero Dryopithecus 18 a 15 milhões de anos atrás. Todos os caracteres que diferem Silvapithecus de Dryopithecus estão na linha de desenvolvimento em direção aos caracteres hominídeos.

 

Dos Silvapithecus descenderam duas ramificações. A primeira, que teve uma evolução paralela extinta, foi o gênero Gigantopithecus, que viveu no sudeste da Ásia entre 1,4 e 0,5 milhão de anos atrás. Pesando de 170 a 300 kg, foi o maior primata que já existiu na Terra. A segunda ramificação originou o gênero Pongo dos dias atuais, com cerca de 90 kg (os orangotangos das florestas tropicais de Bornéu e Sumatra, no sul da Ásia).

 

Comentário – A pergunta sobre quando a linhagem hominídea se separou dos antropoides ainda não pode ser respondida, mas podemos eliminar hipóteses. Como não existem registros fósseis do orangotango, os estudos devem se basear na comparação dos antropoides atuais. Havia antigamente uma aceitação de que a linhagem do homem tinha se separado muito antes de os antropoides se diferenciarem em orangotango, gorila e chimpanzé. Um estudo comparativo das proteínas, cromossomos e parasitas internos e externos, contudo, indicou decisivamente que os antropoides africanos (gorilas e chimpanzés) são mais semelhantes ao homem do que os orangotangos da Ásia. Por isso, é quase certo que a linhagem do orangotango se tenha separado bem antes dos demais antropoides/hominídeos.

 

14 Milhões – Surgem na África os macacos hominoides do gênero Kenyapithecus, que já apresentavam uma adaptação a ambientes de florestas com grandes clareiras. Pesavam em torno de 30 kg e possuíam uma mandíbula robusta, molares com esmalte grosso e grandes pré-molares superiores, indicando que as frutas com casca dura faziam parte de sua dieta. Desapareceram por volta dos 2 milhões de anos sem deixar descendência.

 

8 Milhões – Ocorrem na África novas movimentações tectônicas no Rift Valley, forçando a emersão de rocha liquefeita e criando a elevação dos planaltos __ cadeias de montanhas com 6.400 quilômetros de extensão no sentido norte-sul da África. Esta barreira natural recém-formada passou a reter os ventos e nuvens que chegavam do Oeste modificando drasticamente o clima na região Leste.

 

Comentário – Este evento marcou a nossa evolução e nos ajuda a responder quando, onde e porque a linhagem hominídea se separou da linhagem antropoide. Podemos também admitir que, provavelmente, o “elo perdido” estava presente nessa época, em que as espécies de macacos hominoides viviam nas árvores em toda a África.

 

Essa linha divisória criou dois ambientes distintos. O lado oeste ou ocidental permaneceu recebendo a influência dos ventos e nuvens, que significava chuvas constantes, e não sofreu grandes mudanças climáticas. Suas florestas tropicais foram o ambiente da ramificação dos ancestrais dos gorilas e chimpanzés. Por volta dos 6 a 5 milhões de anos ocorreu uma bifurcação dessa ramificação. Uma originou o gênero Gorilla dos dias atuais, os maiores primatas com 90 a 200 kg (os gorilas das florestas tropicais da África). A outra originou o gênero Pan dos dias atuais, com 30 a 60 kg (os chimpanzés e bonobos da África).

 

O lado leste ou oriental, por sua vez, passou a não receber essa influência dos ventos e nuvens e, com as drásticas mudanças climáticas, foi gradativamente se tornando o ambiente meio árido das savanas. Sem as grandes florestas e suas árvores, que significavam abrigo e alimento, nossos ancestrais tiveram que se adaptar a este novo habitat e evoluir para a vida no chão e para uma mudança em sua dieta. (Veja “respondendo a uma terceira pergunta“, mais à frente.)

 

Período Plioceno (5,5 Milhões a 1,6 Milhão) – Fim da Era Terciária – Surgem os Hominídeos

 

A geografia da Terra vai se tornando praticamente igual ao que hoje conhecemos. Ocorrem os ciclos glaciares e os níveis dos oceanos tornam-se inconstantes. Os macacos hominoides desaparecem da Europa. Na África, a alternância de períodos frios e quentes provoca a sucessão de épocas secas e úmidas e faz com que a savana progrida. Os macacos hominoides ultrapassam o Rift Valley em direção ao oeste tropical. Os hominídeos se expandem por toda a África e provavelmente Ásia e Europa.

 

Comentário – Surge nas savanas do leste da África o primeiro estágio da linhagem hominídea, e aqui começa a resposta à segunda pergunta.

 

4 Milhões – Surgem os primeiros macacos bípedes representantes da família dos Hominídeos, da qual também pertencemos. É o gênero Australopithecus (espécies Australopithecus anamensis e A. afarensis). Essencialmente vegetarianos e pesando em torno de 50 kg, sua locomoção bípede ainda era imperfeita __ já apresentavam semelhanças na conformação dos ossos pélvicos, extremidades inferiores e articulação entre o crânio e a coluna vertebral, indicando uma postura ereta, apesar de não ter sido tão perfeita como a do homem moderno __ e o volume de seu cérebro era muito pouco maior do que o de um chimpanzé (média de 380 cc). Seu mais conhecido representante arqueológico, com 3,15 milhões de anos, é Lucy, um exemplar A. afarensis feminino adulto que media em torno de 1,30 m. Desapareceram por volta dos 2 milhões de anos e não deixaram descendência.

 

3 Milhões – Surgem no sul da África os primeiros indivíduos da espécie Australopithecus africanus. Também vegetarianos e menos corpulentos do que os A. afarensis, com cerca de 45 kg e capacidade endocraniana média de 460 cc, viveram até 2,5 milhões de anos atrás e são os ancestrais do gênero Paranthropus (espécies Paranthropus boisei e P. robustus), formado por hominídeos com cerca de 50 kg que viveram a partir de 2,8 milhões de anos atrás no leste e no sul da África. Diferiam de seus antecessores em nicho alimentar (sementes de gramíneas), locomoção (menos ereta) e habitat. Suas mandíbulas eram mais fortes, com molares trituradores grandes e o cérebro mais desenvolvido. Já utilizavam pedaços de galhos para escavar o solo. Os Paranthropus sucumbiram à competição com os outros hominídeos (que evoluíram de Australopithecus para Homo) por volta de 1,4 milhão de anos sem deixar descendência.

 

2 Milhões – Surgem na África (e possivelmente na Ásia e Europa) os indivíduos da primeira e mais antiga espécie do gênero humano, o gênero Homo (espécie Homo habilis), nossos ancestrais diretos. Com 35 a 40 kg e 1,40 a 1,55 m de altura e locomoção bípede mais perfeita, sua capacidade endocraniana já era em torno de 730 cc (metade do Homo sapiens, com 1500 cc). Desenvolveram as técnicas do talhe dos seixos e construíram os primeiros rudimentos de abrigos para proteção. Conviveram com os últimos Australopithecus e com os Paranthropus na África e com os Gigantopithecus na Ásia. Enquanto os Australopithecus eram vegetarianos, os Homo habilis já tinham uma dieta parcialmente carnívora, que se traduzia em atividades de caça e de busca e consumo de carniça.

 

Comentários – A passagem (evolução) de Australopithecus para Homo é a prova cabal de que é a pressão seletiva do ambiente que determina as variações na evolução das diferentes partes do corpo. No gênero Australopithecus o pélvis, as extremidades, a forma da fileira de dentes e o padrão de cúspides dos molares são muito semelhantes aos do homem moderno, mas as gigantescas mandíbulas, a face prognata e o cérebro pequeno eram muito semelhantes aos dos macacos antropoides. Essa dualidade morfológica, o meio caminho entre o macaco antropoide e o homem, ficou patente na descoberta do homem de Java. Antes da descoberta de Australopithecus, o fóssil hominídeo mais famoso, descoberto em 1891 na Ilha de Java, foi cunhado de Pithecanthropus erectus (“homem-macaco ereto”). Alguns autores consideravam os restos fósseis como sendo de humanos, enquanto outros acreditavam ser de macacos antropoides. A opinião da maioria era de que o fêmur não podia ter relação com a calota craniana porque era de um “tipo diferente”. Essa descoberta provocou uma das mais calorosas controvérsias na história da antropologia.

 

1,8 Milhão – Surgem na África os primeiros indivíduos da espécie Homo erectus. Um pouco mais corpulentos, com cerca de 55 a 85 kg e 1,50 a 1,60 m de altura, e com capacidade endocraniana bem maior (de 800 a 1000 cc), estes homens foram caçadores exímios e os primeiros a dominar o uso do fogo entre 1 milhão e 500 mil anos atrás.

 

Período Plistoceno (1,6 Milhão a 10 mil anos) – Início da Era Quaternária – Expansão do homem e declínio dos primeiros hominídeos

 

A geografia da Terra já é igual ao que é hoje. As grandes variações climáticas (glaciações) provocam a extinção de várias espécies de mamíferos, incluindo os hominídeos. Somente a espécie Homo erectus sobrevive e se expande por toda a África e povoa todo o velho mundo (Ásia, Europa e Extremo Oriente) entre 1,6 e 1 milhão de anos atrás. Perto do final do Plistoceno, as glaciações (denominada a Idade do Gelo) terminam e o planeta começa a se aquecer gradualmente. Com isso, boa parte das geleiras derretem e o nível dos oceanos sobem consideravelmente. Do Homo erectus descenderam duas ramificações com evoluções paralelas: uma na África e Oriente Médio e outra na Europa.

 

Comentário – Cabe aqui uma recapitulação e uma explicação. Sabe-se que o Australopithecus africanus deu origem ao Homo habilis, que originou o Homo erectus e que este evoluiu para o Homo sapiens. Quando se fala que uma espécie originou a outra, deve-se ter em mente que isto não ocorreu de forma súbita, mas sim de modo gradual e contínuo através de respostas a pressões seletivas do ambiente. Assim, existiram diversas populações intermediárias contemporâneas neste processo evolutivo, algumas chegando ao nível de espécie. As populações mais evoluídas conviveram na mesma época, disputaram os mesmos recursos e foram capazes de encontrar e exterminar as populações ou espécies irmãs mais atrasadas. Do erectus ao sapiens, por exemplo, aparecem em diversas regiões do planeta vários grupos de espécies, como os homens de Java, de Pequim, de Heidelberg, de Piltdown e da Rhodésia que viveram entre 600 e 200 mil anos atrás. O arquétipo do homem fóssil (onde se encontram criaturas que combinam um crânio moderno com um maxilar primitivo, do homem de Piltdown, às criaturas com características semelhantes aos neandertais, como o homem da Rhodésia) consiste de muitos grupos de famílias ou pequenos bandos isolados por numerosas barreiras geográficas ou ecológicas. Provavelmente havia muito pouca mistura entre bandos vizinhos e a diferenciação local deve ter sido muito intensa. Pode-se supor que estas populações tenham sido muito mais distintas entre si do que são hoje as “raças” do homem moderno.

 

200 mil anos – Europa – Surgem os primeiros indivíduos do gênero Pré-neandertaliano, com 60 a 70 kg e 1,55 a 1,65 m de altura, que povoaram as montanhas frias da Europa por mais de 100 mil anos. Deles descenderam os indivíduos da espécie Homo sapiens neanderthalensis ou o homem de Neanderthal, que povoaram a Europa e parte da Ásia a partir de 100 mil anos atrás.

 

Com feições rudes e pesadas, sua cabeça maciça, inclinada e projetada para a frente, não era ereta. A estrutura dos ossos da perna mostra que eles não podiam manter-se totalmente eretos e andavam com uma pronunciada curvatura dos joelhos balançando-se grotescamente. A expressão “homem das cavernas” pode ser atribuída originalmente aos neandertais. Em sua época, o clima antes quente na Europa começou a mudar e as geleiras do norte mais uma vez avançaram para o sul. As tribos de neandertais tiveram que abandonar sua vida errante e procurar cavernas e grutas para se abrigar. Alimentavam-se tanto de vegetais como de animais e suas armas eram construídas de madeira e pedras grosseiramente lascadas. Apesar de estarmos acostumados a ver o homem primitivo como um caçador de grandes animais, é muito mais provável que o homem de Neandertal fosse mais caça do que caçador.

 

Os restos de grandes mamíferos encontrados entre os remanescentes de suas moradias eram provenientes da coleta de carniça. Os homens primitivos eram um dos mais ativos aproveitadores de restos da caça dos grandes predadores. Gostavam de comer carne, mas não tinham condições de caçar grandes animais para conseguir carne fresca. Raramente conseguiam capturar animais maiores do que aves, coelhos e ratos e complementavam sua dieta coletando ovos, moluscos e peixes mortos e capturando rãs, sapos, lagartas, vermes e pequenos répteis. Assim, é perfeitamente plausível imaginar um grupo familiar de neandertais em torno de uma fogueira devorando sua refeição composta de raízes, bulbos, lagartas e carne meio putrefata. Recentes descobertas evidenciam também que o homem de Neanderthal caçava e comia outros semelhantes humanos da mesma forma que os animais, podendo até mesmo ter praticado o canibalismo em estações muito frias.

 

Com o agravamento do clima frio, provocando a escassez de alimento, associado à feroz competição com o homem moderno que chegava à Ásia e à Europa (o representante fóssil europeu foi chamado de homem de Cro-Magnon), as populações dos neandertais começaram a declinar há 35 mil anos e desapareceram completamente por volta dos 30 mil anos, subjugadas e extintas pelo homem moderno. Esse fato assinalou a transição do selvagem absoluto, com pouca capacidade intelectual e pouquíssimos interesses que não dissessem respeito às árduas necessidades da sobrevivência, para um tipo de homem que, embora ainda mais selvagem que os índios atuais, já era inventor, artista e capaz de raciocínio abstrato.

 

200 mil anos – Leste e sul da África e Oriente Médio – Surgem os primeiros indivíduos da espécie Homo sapiens arcaico, com 50 a 75 kg e 1,60 a 1,75 m de altura. Seus fósseis datam de 200 a 100 mil anos. São os ancestrais da nossa espécie Homo sapiens sapiens ou Homo sapiens moderno, que surgiu há 100 mil anos no Oriente Médio. Viviam em grupos nômades coletando o que a natureza lhes dava, como frutas, tubérculos e folhas, e caçando eventualmente. Datam desta época os mais antigos instrumentos musicais e de pintura, ferramentas primitivas e os primeiros sinais de sepultamento de mortos.

 

Logo depois, entre 100 e 90 mil anos, o Homo sapiens moderno aparece também na África. Em seguida alcança a Ásia, há 70 mil anos, a Austrália, há 50 mil anos, e, finalmente, a Europa, povoada pelo homem de Cro-Magnon, por volta de 40 a 35 mil anos atrás. Como muitos outros povos primitivos, os homens de Cro-Magnon viviam ao ar livre, em cabanas ou tendas feitas de hastes de madeira e peles de animais, quando o clima era favorável, mas se refugiavam também nas cavernas, quando o tempo se tornava desfavorável. Foi em seus lares cavernícolas que foram encontradas as mais perfeitas relíquias arqueológicas, como fogões, facas, pontas de lança e utensílios de pedra lascada, remanescentes de festins e celebrações, bastões de chifre de rena esculpidos, obras de arte esculpidas em ossos e marfim e as famosas pinturas rupestres.

 

Entre 30 e 10 mil anos atrás, novas raças vindas da Ásia __ povos mais viris e acostumados a lutar __ invadiram a Europa e arrebataram a região de domínio dos Cro-Magnon, porém esses não se extinguiram totalmente, como aconteceu com os neandertais. Muitos deles se uniram aos invasores e em certas regiões da Europa permaneceram quase sem mudanças. Atualmente, existem na região da Dordogne (França), alguns milhares de pessoas que, racialmente (geneticamente), não diferem muito dos antigos “Cro-Magnards”

 

No entanto, não tardou para que esses povos que invadiram e se apoderaram da Europa, como o homem de Azil, fossem, eles próprios, expulsos para o Oeste por hordas de robustos guerreiros vindos da Ásia que traziam novas armas, como o homem de Breuil. E assim, durante milhares de anos, seguiram-se as invasões, uma após a outra, vindas quase sempre do Oriente.

 

Os continentes americanos também foram povoados por essas raças vindas da Ásia, seguidas de outras mais. Existem várias hipóteses sobre este povoamento ou ocupação. Uma delas diz que houve quatro ondas migratórias para o continente americano. A primeira teria sido feita pelos antepassados do mais novo e notório fóssil humano brasileiro (e o mais antigo já achado nas Américas), encontrado nos arredores de Belo Horizonte (MG) e datado de 11500 anos __ Luzia, uma mulher de traços negroides com 1,50 metro de altura __, há cerca de 15 mil anos, cruzando de barco o extremo norte do Oceano Pacífico até a América do Norte e dali para a América do Sul. Viveram milhares de anos de forma tranquila até serem dizimados na disputa por território e comida com a segunda onda migratória, ocorrida há 12 mil anos, que foi empreendida pelos povos mongóis siberianos que atravessaram o Estreito de Bering. Essa segunda leva deu origem aos índios atuais.

 

Entre 10 e 5 mil anos atrás ocorreram as duas outras ondas migratórias. A terceira foi realizada pelos nadenses, que se estabeleceram na costa oeste americana, dando origem aos povos aztecas, e a quarta deu origem aos esquimós.

 

Desde os nossos antepassados hominídeos até os dias atuais, quando transpusemos uma distância enorme entre o homem-macaco e o homem moderno, existe uma característica no desenvolvimento do homem que não mudou em sua essência: a invasão e domínio de áreas cobiçadas por espécies, grupos, povos ou raças com maior grau de desenvolvimento, através da força e da maior aptidão, subjugando, aculturando, absorvendo ou extinguindo a que dominava anteriormente aquela área.

 

Assim como ocorreu com os Australopithecus, com os Homo habilis e Homo erectus, com os Neandertais e com os Cro-magnons, aconteceu também com os índios americanos após a invasão das Américas pela “5a onda migratória”, empreendida pelos portugueses e espanhóis há mais de 500 anos, que, mais uma vez, através da força advinda de um maior grau de desenvolvimento, invadiram, dominaram, colonizaram e extinguiram diversas raças a mais tempo estabelecidas.

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Esse texto é a terceira parte da trilogia sobre a Origem e Evolução Humana. 

Acompanhe nossas redes sociais e não perca a continuação dessa jornada incrível.

Leia a parte 1 e 2

One Response

  1. Szpilman, parabéns pelo primoroso texto sintetizando enriquecedores elementos na evolução humana… obrigado!…

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